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Em 1984 Newton Braga Rosa me convidou para apresentar os produtos da Digitel[1] na sua cadeira de Equipamentos de Processamento de Dados que eu mesmo já cursara na pós-graduação, e que, com a criação do Instituto de Informática, migrou para a grade curricular da graduação. Eu sempre brinco com o Newton que ele tem uma rara sensibilidade de perceber as grandes tendências e de unir o útil ao agradável fazendo com que outros trabalhem para (ou com) ele.
Quando eu cursava a cadeira uns sete anos antes, ele convidava IBM, Burroughs, DEC etc. para apresentarem seus computadores. Geralmente quem apresentava eram profissionais da área de vendas que sabiam para que os computadores eram usados e os problemas que resolviam, mas não sabiam como eles funcionavam. De fato, naquela época e até hoje, o mercado brasileiro envolve muito mais a tecnologia de uso do que a de desenvolvimento de equipamentos de informática. Portanto, era interessante que os alunos tivessem um primeiro contato com os produtos que, quando entrassem no mercado, iriam comprar e/ou usar. Ora, na pós, particularmente para nós que tínhamos ênfase em hardware, queríamos e estávamos aprendendo como “desenvolver” computadores. Portanto, aquelas aulas tinham sido totalmente desinteressantes para mim. Com a Reserva de Mercado e o surgimento de empresas nacionais que desenvolvem equipamentos, o Newton começou a convidá-las para apresentar seus produtos aos futuros compradores.
Quando fui apresentar a Digitel na aula do Newton, verifiquei que a maioria dos alunos tinha cursado minha cadeira de Teleprocessamento, onde eu ensinava o funcionamento e os diferentes casos de uso dos vários tipos de modens e equipamentos de comunicação de dados, incluindo os que a Digitel fabricava. Achei que seria ridículo vender para alunos que, na verdade, eu ensinava muito mais profundamente do que as características constantes de um catálogo de produtos. Então, resolvi subverter o script e perguntei:
- O que vocês pretendem fazer depois de formados? Vocês estão estudando para serem empregados? Já pensaram em empreender? Afinal, vocês têm o privilégio de estar aprendendo tecnologias que muito poucas pessoas no Brasil dominam.
Falei então que havia apenas 5 anos eu estava na mesma situação que eles e resolvi contar a história da criação da Digitel e da Altus[2]. Contei das dificuldades e perrengues pelos quais tinha passado e de como isso havia ampliado meus horizontes. Naquela época não existia o termo startup, nem o ecossistema de inovação que se criou a partir da segunda metade da década seguinte e nem aqui, nem naquela ocasião pude contar sequer metade dos episódios marcantes justamente por serem difíceis e que depois viram ótimas estórias.
Newton conta que, na hora, ficou aborrecido com a minha subversão. Mas ele tinha o hábito de passar uma avaliação de reação após cada aula e se surpreendeu com o fato de que aquela aula teve a melhor avaliação entre todas. Ele teve então a sacada de adotar a subversão como uma revolução e criou a primeira cadeira de empreendedorismo na universidade brasileira, passando a convidar empreendedores para contar suas histórias de vida.
Empreendedorismo
A sacada do Newton de convidar pessoas para contarem suas histórias pessoais casa bem com minha crença de que empreendedorismo não se ensina – se inspira. Sim, porque empreender não significa criar empresas, mas sim realizar projetos difíceis, sair da rotina em busca de objetivos de mais longo prazo, enfrentar desafios, riscos e incertezas. E todas as pessoas trazem dentro de si o impulso dos desejos de realização ao lado da trava do medo do desconhecido e do fracasso. A maior conquista de empreender não é o sucesso, mas a superação dos próprios medos, que se constituem nos grandes limites do desenvolvimento pessoal. Como disse Nietzsche, “o que não me mata, me fortalece”. Mas, em primeiro lugar, a pessoa tem de se responsabilizar pelas suas escolhas. Esse é o preço da verdadeira liberdade. O sucesso não está garantido, e o crescimento só ocorre quando se aceita pagar o preço pelos erros. Há que aprender a sofrer e seguir em frente mesmo com dor. Entretanto, pessoas que não aprendem a suportar a dor e fracassam em seus empreendimentos, imputam a responsabilidade por seus infortúnios a outros e se dizem vítimas das circunstâncias. Reagindo assim, não se fortalecem e se tornam amarguradas. Para os que se fortalecem, talvez o fracasso ensine mais do que o sucesso. Essa minha crença, posteriormente, inspirou a criação da PowerSelf Desenvolvimento Pessoal. O nome não poderia ser mais apropriado.
Então, existem empreendimentos individuais e empreendimentos coletivos. Para empreender individualmente basta a coragem de enfrentar o próprio medo de desagradar ou de se frustrar. Já num empreendimento coletivo, como a criação de uma empresa, é preciso ir além.
Uma empresa, inicialmente, é um sonho que empolga e que faz sentido para todos os stakeholders envolvidos ou interessados: sócios, colaboradores, clientes, fornecedores, investidores e a sociedade em geral. Empolgar significa entusiasmar pelo propósito – quanto mais significativo melhor. Fazer sentido significa, no fim das contas, ter uma perspectiva de ganho individual para cada interessado. Diante de todos eles o empreendedor é o grande devedor. Vendeu um sonho que precisa se tornar realidade, pelo menos em parte. Caso contrário, ele vendeu um sonho e entregou um pesadelo e, se assumiu a responsabilidade, enfrentará a dor de pagar os débitos. Por isso, o título que escolhi para o meu livro com reflexões sobre empreendedorismo foi “O Entregador de Sonhos”.
[1] Digitel foi a primeira startup que fundei junto com outros 3 colegas em 1978.
[2] Altus foi uma segunda startup criada dentro da Digitel em 1983 com outros 3 colegas da pós.
Em 1984 Newton Braga Rosa me convidou para apresentar os produtos da Digitel[1] na sua cadeira de Equipamentos de Processamento de Dados que eu mesmo já cursara na pós-graduação, e que, com a criação do Instituto de Informática, migrou para a grade curricular da graduação. Eu sempre brinco com o Newton que ele tem uma rara sensibilidade de perceber as grandes tendências e de unir o útil ao agradável fazendo com que outros trabalhem para (ou com) ele.
Quando eu cursava a cadeira uns sete anos antes, ele convidava IBM, Burroughs, DEC etc. para apresentarem seus computadores. Geralmente quem apresentava eram profissionais da área de vendas que sabiam para que os computadores eram usados e os problemas que resolviam, mas não sabiam como eles funcionavam. De fato, naquela época e até hoje, o mercado brasileiro envolve muito mais a tecnologia de uso do que a de desenvolvimento de equipamentos de informática. Portanto, era interessante que os alunos tivessem um primeiro contato com os produtos que, quando entrassem no mercado, iriam comprar e/ou usar. Ora, na pós, particularmente para nós que tínhamos ênfase em hardware, queríamos e estávamos aprendendo como “desenvolver” computadores. Portanto, aquelas aulas tinham sido totalmente desinteressantes para mim. Com a Reserva de Mercado e o surgimento de empresas nacionais que desenvolvem equipamentos, o Newton começou a convidá-las para apresentar seus produtos aos futuros compradores.
Quando fui apresentar a Digitel na aula do Newton, verifiquei que a maioria dos alunos tinha cursado minha cadeira de Teleprocessamento, onde eu ensinava o funcionamento e os diferentes casos de uso dos vários tipos de modens e equipamentos de comunicação de dados, incluindo os que a Digitel fabricava. Achei que seria ridículo vender para alunos que, na verdade, eu ensinava muito mais profundamente do que as características constantes de um catálogo de produtos. Então, resolvi subverter o script e perguntei:
- O que vocês pretendem fazer depois de formados? Vocês estão estudando para serem empregados? Já pensaram em empreender? Afinal, vocês têm o privilégio de estar aprendendo tecnologias que muito poucas pessoas no Brasil dominam.
Falei então que havia apenas 5 anos eu estava na mesma situação que eles e resolvi contar a história da criação da Digitel e da Altus[2]. Contei das dificuldades e perrengues pelos quais tinha passado e de como isso havia ampliado meus horizontes. Naquela época não existia o termo startup, nem o ecossistema de inovação que se criou a partir da segunda metade da década seguinte e nem aqui, nem naquela ocasião pude contar sequer metade dos episódios marcantes justamente por serem difíceis e que depois viram ótimas estórias.
Newton conta que, na hora, ficou aborrecido com a minha subversão. Mas ele tinha o hábito de passar uma avaliação de reação após cada aula e se surpreendeu com o fato de que aquela aula teve a melhor avaliação entre todas. Ele teve então a sacada de adotar a subversão como uma revolução e criou a primeira cadeira de empreendedorismo na universidade brasileira, passando a convidar empreendedores para contar suas histórias de vida.
Empreendedorismo
A sacada do Newton de convidar pessoas para contarem suas histórias pessoais casa bem com minha crença de que empreendedorismo não se ensina – se inspira. Sim, porque empreender não significa criar empresas, mas sim realizar projetos difíceis, sair da rotina em busca de objetivos de mais longo prazo, enfrentar desafios, riscos e incertezas. E todas as pessoas trazem dentro de si o impulso dos desejos de realização ao lado da trava do medo do desconhecido e do fracasso. A maior conquista de empreender não é o sucesso, mas a superação dos próprios medos, que se constituem nos grandes limites do desenvolvimento pessoal. Como disse Nietzsche, “o que não me mata, me fortalece”. Mas, em primeiro lugar, a pessoa tem de se responsabilizar pelas suas escolhas. Esse é o preço da verdadeira liberdade. O sucesso não está garantido, e o crescimento só ocorre quando se aceita pagar o preço pelos erros. Há que aprender a sofrer e seguir em frente mesmo com dor. Entretanto, pessoas que não aprendem a suportar a dor e fracassam em seus empreendimentos, imputam a responsabilidade por seus infortúnios a outros e se dizem vítimas das circunstâncias. Reagindo assim, não se fortalecem e se tornam amarguradas. Para os que se fortalecem, talvez o fracasso ensine mais do que o sucesso. Essa minha crença, posteriormente, inspirou a criação da PowerSelf Desenvolvimento Pessoal. O nome não poderia ser mais apropriado.
Então, existem empreendimentos individuais e empreendimentos coletivos. Para empreender individualmente basta a coragem de enfrentar o próprio medo de desagradar ou de se frustrar. Já num empreendimento coletivo, como a criação de uma empresa, é preciso ir além.
Uma empresa, inicialmente, é um sonho que empolga e que faz sentido para todos os stakeholders envolvidos ou interessados: sócios, colaboradores, clientes, fornecedores, investidores e a sociedade em geral. Empolgar significa entusiasmar pelo propósito – quanto mais significativo melhor. Fazer sentido significa, no fim das contas, ter uma perspectiva de ganho individual para cada interessado. Diante de todos eles o empreendedor é o grande devedor. Vendeu um sonho que precisa se tornar realidade, pelo menos em parte. Caso contrário, ele vendeu um sonho e entregou um pesadelo e, se assumiu a responsabilidade, enfrentará a dor de pagar os débitos. Por isso, o título que escolhi para o meu livro com reflexões sobre empreendedorismo foi “O Entregador de Sonhos”.
[1] Digitel foi a primeira startup que fundei junto com outros 3 colegas em 1978.
[2] Altus foi uma segunda startup criada dentro da Digitel em 1983 com outros 3 colegas da pós.